Casa-grande e senzala: a segregação em prédios e favelas

 (Foto: Acervo Fundação Gilberto Frayre/Divulgação)

Abertos os portões da casa-grande original do século 19, no bairro de Apipucos, na Zona Norte do Recife, saía de bicicleta um ainda jovem Gilberto Freyre (1900-1987), disposto a cruzar a cidade a pedaladas, até o centro do município. Aluno do colégio Americano Batista, filho de juiz de direito e descendente de colonizadores, ele circulava por ruas sem calçamento, de muitos casarões e prédios imponentes, embora não muito altos. Isso antes de completar 18 anos e se mudar para os Estados Unidos, onde daria prosseguimento aos estudos.


Aos 33 anos, de volta à terra natal, lança a primeira e mais influente de suas obras, Casa-grande & senzala, um livro revolucionário que sacramentou os casarões de sua época como símbolo maior da sociedade patriarcal colonial brasileira. Eram como tronos onde sentavam figuras soberanas, abrigo de figuras como o senhor de engenho (ou equivalente), em torno do qual girava um universo particular. Nesse homem estavam centradas todas as funções sociais, todo o poder. A interpretação da realidade feita pelo sociólogo-antropólogo foi decisiva na construção de uma identidade nacional.

Quem se atrever, hoje, a refazer o caminho feito tantas vezes por Gilberto Freyre, pedalar de Apipucos até o Bairro do Recife, vai se deparar com paisagens completamente distintas e, por trás delas, outras realidades sociais. Das avenidas movimentadas, nas quais milhares de automóveis se espremem em engarrafamentos diários, de onde surgem prédios espigões, enxergam-se novos problemas, novos cenários, novos caminhos.

“A mim parece que, se Freyre fosse vivo, deploraria essa situação. Para ele, esses arranha-céus e toda a especulação imobiliária deles resultante seria uma agressão aos modelos arquitetônicos brasileiros. Olhando as mudanças atuais me parece que ele não gostaria nada do que esta acontecendo”, comenta o professor da UFPE Tiago de Melo Gomes, doutor em história pela Unicamp.

As questões antigas, de qualquer modo, ainda estariam lá, sugere o pesquisador Fernando da Mota Lima, mestre em sociologia pela UFPE. “Muitos traços nocivos do patriarcalismo e do escravismo dentro do qual fomos formados continuam bem vivos no presente. Gilberto Freyre (também Joaquim Nabuco, que antecipou muitas das intuições críticas de Freyre) teve olhar agudo para discernir esses traços. Basta conferir a obra de ambos”, avalia Fernando da Mota, para em seguida atribuir a essa herança negativa o processo “predatório” de acelerada expansão urbana do Recife.

“Incorporamos a modernidade e o capitalismo globalizado retendo algumas das piores forças do passado opressivo que herdamos. As evidências estão nas ruas e na nossa relação com os espaços público e privado; na arquitetura e na expansão comandada por políticos e empresários de mentalidade ainda senhorial”. Para Fernando da Mota, essas figuras ainda são, no fundo, “coronéis dissimulados sob a aparência da nossa modernidade perversa”.

É como hoje


A estruturação da hierarquia social com base na arquitetura, frisada por Freyre, é um conceito ainda aplicável no Recife. A casa-grande continua reduto dos privilegiados. A senzala, espaço dos demais. Para a professora do curso de arquitetura da UFPE Lúcia Leitão, há excessiva valoração de ambientes que “aproximam os iguais, socialmente falando”. “Os shopping centers, por exemplo, ambientes aos quais são bem-vindos apenas aqueles que pertencem a um determinado grupo social, a uma ‘família’ socialmente ampliada, como era a família patriarcal —, para o qual a renda parece ser a “senha” para inclusão”, destaca. Outro local é o condomínio fechado. “Poucas sociedades valorizam tanto o que é vip, prime, personnalité, etc. É parte da resposta para o fato de não termos espaços públicos, nem em quantidade, nem em qualidade, adequados à vida na cidade. Ambientes capazes de nos fazer sentir prazer em estar na praça, na rua, nos cafés abertos para a rua, como se faz em outras cidades/sociedades”, diz.


CONDOMÍNIO E FAVELA

Pensemos, por exemplo, nas favelas, nos shopping centres, nos apartamentos de luxo ou nos condomínios fechados, esses modernos e sofisticados guetos urbanos. Como eu e o Peter (Burke) sugerimos no nosso livro Repensando os trópicos – um retrato intelectual de Gilberto Freyre (Unesp, 2008), o Freyre de hoje provavelmente acrescentaria um quarto volume à sua trilogia que poderia se chamar O condomínio e a favela, já que esses tipos de construção são os equivalentes modernos da casa-grande e das senzalas.

SEGREGAÇÃO MODERNA


Diria que não é algo tão visível ou detectável nas construções. “Lendo” a cultura material em geral – da qual a arquitetura é parte – diria que o imenso número de carros pelas ruas da cidade revela muito sobre o individualismo moderno no Brasil. Em contraste com a mistura de classes sociais que acontecia nos bondes urbanos no início do século 20, agora há uma espécie de segregação, os ônibus abarrotados sendo o transporte dos pobres e os carros, o meio de transporte do resto da população. E não há só um carro da família, como no passado, mas quase que um carro para cada membro da famíli
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Post Author: Assessoria

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