Polêmicas marcam o primeiro ano do Papa Francisco à frente da Igreja

O Papa Francisco em visita ao Brasil, no Rio de Janeiro, em julho de 2013 / Edmar Melo/JC Imagem

O Papa Francisco em visita ao Brasil, no Rio de Janeiro, em julho de 2013

Edmar Melo/JC Imagem

Jorge Mario Bergoglio foi o segundo raio a atingir o Vaticano, após a renúncia do papa Bento XVI, há um ano. Era um dos menos papáveis entre os 115 cardeais que se reuniram para eleger um novo líder e tentar resolver a crise gerada pela saída inédita do alemão Joseph Ratzinger. 
A bem da verdade, Bergoglio acumulava improbabilidades, a começar pelo fato de ser jesuíta (ordem que faz um voto específico de obediência que, geralmente, os leva a não ascender dentro da hierarquia da Igreja Católica, a ponto dos primeiros bispos jesuítas só terem sido ordenados no século 20, por João Paulo II). Além de jesuíta, era argentino. E para marcar sua absoluta singularidade, ao ser eleito, escolheu se chamar Francisco. O primeiro Francisco entre 266 chefes da Igreja. 
Marcando seu pontificado, Francisco surpreendeu pelo despojamento, retirando a estola luxuosa determinada para a posse e se curvando à multidão reunida na Praça de São Pedro. O pedido para que o povo reze por ele vem sendo repetido com constância, e não apenas aos católicos. Após ter cimentado amizade com a colônia judaica em seu país, Francisco recentemente enviou um vídeo a pastores e líderes evangélicos pentecostais dos Estados Unidos, finalizando com um pedido de preces. De forma polêmica, chegou a declarar que até os ateus podem ir para o Céu. 
“Ele enxerga que a Igreja não é maior do que Deus”, avalia o historiador Severino Vicente, professor da UFPE que, inspirado pela atuação do novo papa, escreveu o artigo A Igreja Católica no início do Terceiro Milênio.
Polêmicas também foram as acusações de colaboração com a ditadura argentina, possivelmente alimentadas por colegas da Cúria. “Não existe unanimidade e certamente a cruz dele é muito pesada. Há muitas dificuldades a enfrentar”, atesta o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido.
No próximo dia 13, quando completará um ano de papado, Francisco poderá comemorar o trabalho cumprido, chegando ao feito de ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz. “Apesar de ser um ano de arrumação, ele conseguiu imprimir sua força. As mudanças estão começando cada vez mais a acontecer. Eu pontuaria a sabedoria dele em não se precipitar e em estimular os bispos a estarem cada vez mais perto das pessoas. É um começo muito feliz para um papa”, afirma Dom Fernando. 
Gradativamente, questões como o saneamento da administração da Cúria (com destaque para o Banco Ambrosiano, onde ocorreram diversos escândalos financeiros nos últimos anos), vêm sendo abordadas de forma direta, com substituição de diversos elementos-chave. Em vez de proteger o contraventor, em janeiro o Vaticano ajudou a polícia italiana a prender o monsenhor Nunzio Scarano, responsável pela evasão de 20 milhões de euros da Suíça para a Itália, usando suas contas no Banco Ambrosiano para lavar dinheiro. 
Também de forma inovadora, a Igreja tem se disponibilizado a discutir a questão da pedofilia, deixando de proteger e negar os casos cometidos por seus membros. 
Em outubro, Francisco vai reunir, em assembleia extraordinária, o Sínodo dos Bispos, para discutir desafios pastorais variados e questões espinhosas como o divórcio e a homossexualidade, entre outros elementos que vêm modificando o conceito de família na sociedade moderna.
“Em nenhum momento, porém, ele se afastou da doutrina, do dogma. Mas está mudando costumes, o que altera a segurança e fará com que muitos fiquem contra ele. Por isso precisa de tanta força, aquela mesma força que Bento XVI sabia que não tinha e por isso teve a grandeza de se retirar, abrindo mão do imenso poder que é liderar dois bilhões de pessoas sobre a Terra”, finaliza Severino Vicente.

Post Author: Assessoria

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