Cármen Lúcia e o conflito de interesses

A campanha já indiscreta para transformar Carmen Lúcia em candidata séria à sucessão de Michel Temer — agora ou em 2018 — deveria receber um tratamento mais cauteloso de seus aliados assumidos ou encobertos. Presidente do STF pelo prazo de dois anos, Carmen Lúcia está condenada a desempenhar um papel decisivo na definição de candidaturas que eventuais adversários — num caso em que o conflito de interesses pode assumir um caráter particularmente vergonhoso.

Vamos examinar a questão essencial da sucessão de Temer:  o candidato declarado Luiz Inácio Lula da Silva, hoje o líder em todas as pesquisas para o primeiro turno.

A menos que a Lava Jato seja incapaz de apontar qualquer impedimento à sua candidatura e Lula possa se apresentar de frente para o eleitorado, é muito provável que, pelos vários percursos da Justiça brasileira, a decisão final vá parar no Supremo. E ali, em qualquer caso, a palavra de Carmen Lúcia será decisiva para julgar um eventual recurso dos advogados de Lula.

Como presidente da casa, suas prerrogativas não se limitarão a dar o voto, o que seria natural para uma juíza, mas impensável para uma candidata de toga. Também lhe cabe pautar, ou não, um assunto em debate pelo plenário.

E aí o caso é igualmente complexo, para empregar uma palavra neutra. Em qualquer caso, Carmen Lúcia estará diante de uma decisão que pode trazer benefícios — ou prejuízos — óbvios para uma possível candidatura.

Imagine se Aécio Neves tivesse a prerrogativa de julgar a legalidade da candidatura Dilma em 2014. É mais ou menos isso que acontece, quando uma juíza se torna personalidade da política sem tirar a toga. 

A possível candidatura de Carmen Lúcia tem sido alimentada pela Globo, que mais uma vez se consolida como um poder paralelo no interior de uma crise política devastadora.

Além de fazer uma cobertura sempre favorável às iniciativas políticas da presidente do STF, mesmo em situações que seria indispensável lembrar a separação de poderes prevista pela Constituição, seus comentaristas fazem questão de deixar escapar, como se fosse uma observação espontânea, comentários elogiosos ao que a presidente do STF faz e diz. O ambiente é mais do que uma tele-novela. Lembra conto de fadas.

Mestre de várias gerações de jornalistas, inclusive a minha, às quais transmitiu lições insubstituíves da profissão, em sua coluna de hoje, intitulada “Carmen Lucia, presidente”, o jornalista Elio Gaspari escreve: “Havia um vazio em Braília e ele foi ocupado pela ministra Carmen Lúcia.”

Explicada dessa maneira, como descoberta de laboratório, a emergência de uma juíza-candidata parece um acidente da natureza, uma fatalidade sem origem nem responsáveis. Não é assim — como sabem todos aqueles que aprenderam que jabutis não sobem em árvore.

Como disse Joaquim Barbosa, ocorreu uma “encenação” no Congresso, que afastou uma presidente eleita sem prova de crime de responsabilidade. O país enfrenta um governo desastrado, que herdou uma crise passageira para transformá-la no apocalipse do Brasil e dos brasileiros, apoiado numa aliança de corruptos e suspeitos em cargos de confiança. O vazio nada explica e nada justifica. Não é obra do destino mas produto de uma operação deliberada de “deslegitimação” da classe política, como se compreende pela leitura do já famoso artigo de Sérgio Moro sobre a Operação Mãos Limpas. O Brasil vive hoje um ambiente de insegurança e incertezas que parecem longe do fim. Alguém vai negar que o anti-petismo primitivo da mídia grande teve seu papel na construção deste vazio?

Neste ambiente, Carmen Lucia é uma candidata de perfil político desconhecido, sem partidos, cujos compromissos permanecem misteriosos — como convém a um juiz, aliás. Sabemos que agrada a Globo, como tantas vezes aconteceu no passado, em episódios que nem é preciso mencionar aqui. Basta registrar que a ministra-candidata tem sido apresenada como personsagem de um conto de fadas.

Há maior vazio do que este?

Post Author: Assessoria

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