CIÊNCIA POLÍTICA | De subdesenvolvido para emergente: Como a identidade do Brasil mudou no cenário internacional

Por Denise Resende

Uma nação introspectiva, periférica e subdesenvolvida. Historicamente, essa foi a imagem do Brasil difundida para além de suas fronteiras. Mas, com o crescimento econômico e o prestígio internacional vivenciados durante os anos 2000, o país conseguiu atualizar essa identidade. Essa é a constatação da dissertação de mestrado “A Identidade internacional do Brasil emergente no discurso do Governo e da Imprensa”, de Rafael Mesquita de Souza Lima, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPE e orientada pelo professor Marcelo de Almeida Medeiros.

A pesquisa avaliou, seguindo a Análise de Discurso Francesa, 36 pronunciamentos do ministro das Relações Exteriores Celso Amorim e do presidente Lula, principais elaboradores e executores da política externa brasileira à época, e 136 textos de dois periódicos nacionais (IstoÉ e  O Estado de São Paulo) e internacionais (Financial Times, do Reino Unido, e New York Times, dos Estados Unidos). Para fazer a análise, o pesquisador considerou duas ações diplomáticas desenvolvidas pelo Brasil: a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, de 2004, e o Acordo Nuclear assinado em 2010 com Turquia e Irã. 

“Quando vivi no exterior, vi como era divergente da nossa a leitura que os estrangeiros tinham sobre o país; às vezes até para melhor. Isso me motivou a pesquisar sobre como é construída – por diferentes vozes e cada qual com suas idiossincrasias – a percepção do que é o Brasil, qual sua identidade e lugar no mundo”, relata Rafael Mesquita. Quanto às áreas do conhecimento, a pesquisa pode ser considerada interdisciplinar, uma vez que aborda temas das Relações Internacionais, Jornalismo e Análise do Discurso. Conceitos como identidade, enquadramento e formação discursiva foram utilizados para mostrar como um país pode atualizar sua referência no âmbito internacional e como os meios de comunicação atuam nesse processo.

O pesquisador observou que o discurso oficial articulou a identidade internacional do Brasil baseando-se nos temas da Autonomia, Desenvolvimento Socioeconômico, Relações Regionais, Relações Sul-Sul/Universalismo, Credenciais Multiculturais, Reforma das Instituições Internacionais, Promoção da Paz e Solidariedade/não indiferença. Os tópicos mais frequentes foram os das relações Sul-sul/universalismo e Credenciais Multiculturais, mostrando que, naquele contexto, havia uma tendência da política externa brasileira de mostrar o país como uma liderança regional na solução de crises humanitárias e securitárias, além de indicar que “o governo recorre a símbolos e narrativas tradicionais da identidade brasileira como forma de naturalizar e familiarizar os gestos que são, na verdade, uma inovação ou descontinuidade na Política Exterior”, explica Mesquita.

DISCURSO | A imprensa, por sua vez, segundo o pesquisador, teve um discurso mais heterogêneo, principalmente quando se levou em consideração aspectos como o país de origem e a ideologia do jornal. De maneira geral, a pesquisa apontou que a revista semanal IstoÉ e o jornal diário Financial Times foram os periódicos que mais convergiram com o discurso oficial. Segundo o estudo, os então presidente Lula e ministro Celso Amorim buscaram retratar, principalmente, o Brasil como o porta-voz do hemisfério Sul (o “Sul Global”). Os resultados comerciais, a participação e o engajamento em blocos políticos formados por países do Sul, como o G20, foram formas encontradas para legitimar essa posição de liderança do Brasil nos casos haitiano e iraniano. 

A pesquisa conseguiu mostrar, ainda, que o discurso da IstoÉ sobre a temática das Relações Sul-Sul/Universalismo foi praticamente igual ao oficial. Em matéria intitulada “A jogada global de Lula”, a publicação chama o presidente de “a voz dos emergentes” e cria uma linha cronológica com ações diplomáticas do presidente envolvendo o Sul Global e outros países desenvolvidos. O Financial Times também deu amplo destaque a essa temática e, como se trata de um periódico econômico, direcionou o foco para o desenvolvimento socioeconômico do país e mostrou o Brasil como “uma potência exportadora que diversifica seus parceiros comerciais”.

Nesse sentido, uma matéria publicada em setembro de 2004 traz no título “O eterno país do futuro cresce no cenário global” (“the eternal country of the future comes of age on the global stage“) para abordar o aumento das exportações do país que teria um enorme potencial subutilizado. Pela reportagem, com essa “política externa mais altiva e assertiva”, o Brasil pretendia deixar o posto de periferia global e passar a ser visto como potência emergente.

Para a população, segundo o pesquisador, é importante saber como a identidade nacional é criada para entender de que maneira o próprio país está inserido no contexto mundial. “Como membros da comunidade nacional, todos acabamos comungando dessa identificação e é importante ter discernimento sobre como esse self é criado e atualizado por uma pluralidade de vozes. Isso é particularmente importante hoje”, afirma. A dissertação foi publicada em forma de artigo na revista Contexto Internacional, importante periódico na área de Relações Internacionais.





Com informações da assessoria.

















































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