EDUCAÇÃO | Barreiras atitudinais são maior obstáculo à inclusão no ensino superior

Por Marília Ferreira


Abstratas para quem as produz e concretas para quem as sente, as barreiras atitudinais são fatores dificultadores à permanência das pessoas com deficiência na universidade, segundo constatação extraída da dissertação de mestrado “Barreiras atitudinais: obstáculos e desafios à inclusão de estudantes com deficiência no ensino superior”, defendida por Disneylândia Maria Ribeiro, noPrograma de Pós-Graduação em Educação da UFPE. O estudo, que foi defendido em março deste ano (2016), mostra que alguns comportamentos e atitudes presentes no cotidiano, nas interações sociais, na linguagem e nas ações intencionais ou não, provocam consequências danosas a quem as sofre e, de acordo com a pesquisadora, “o impacto é significativo, de forma que contribui para a manutenção do cenário excludente, sendo esses obstáculos invisíveis um dos maiores desafios no dia a dia das pessoas com deficiência”.

Identificando essas barreiras como “ações e práticas que restringem de maneira contundente as possibilidades de desenvolvimento cognitivo, social e emocional do estudante com deficiência”, a autora aponta que na relação entre os estudantes com e sem deficiência estão imbricadas percepções sociais em torno da deficiência que a associam a déficit, diferença, desvio. Para a coleta de dados, Disneylândia realizou, sob orientação do professor Alfredo Macedo Gomes, uma pesquisa de abordagem qualitativa, nos anos letivos de 2014 e 2015, por meio de levantamento de dados e informações junto à Diretoria de Políticas e Ações Inclusivas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN); observações não estruturadas e anotações de campo sobre o cenário e os sujeitos envolvidos na pesquisa; entrevistas semiestruturadas com nove estudantes com deficiência matriculados nos cursos de graduação do campus avançado “Profa. Maria Eliza de Albuquerque Maia” da UERN.

A investigação mostrou que, na relação dos universitários com deficiência e seus colegas, as principais barreiras encontradas foram a de rejeição, que é a recusa irracional de interagir com uma pessoa em razão da deficiência; a de menos valia, quando se acredita na incapacidade das pessoas com deficiência e avalia-se depreciativamente suas potencialidades e ações; a barreira atitudinal de superproteção, em que a proteção desproporcional baseada na piedade e na percepção da incapacidade do sujeito de fazer algo ou de tomar decisões em função da deficiência e, ainda, a barreira de exaltação do modelo, quando se compara a pessoa com e a sem deficiência, usando a primeira como um modelo a ser seguido, em razão da percepção de sua “excepcionalidade” e “superação”. Diante dessas situações, Disneylândia Ribeiro verificou que “os estudantes com deficiência reagem de forma defensiva, adotam comportamentos de vitimização, de encobrimento da deficiência, com a ênfase na superação ou com a dissimulação perceptiva da realidade”.

IGNORÂNCIA | Já na interação pedagógica, entre professores e estudantes, segundo a dissertação, as barreiras de atitude se manifestam por meio do aparente tratamento igualitário em sala de aula, no qual se desconsideram as especificidades educacionais dos alunos com deficiência, negando-lhes, dessa forma, a adequação de metodologia e recursos didáticos. Após analisar as respostas dos estudantes com relação às práticas pedagógicas, foram verificadas as barreiras de negação, quando há um processo de naturalização e negação dos limites decorrentes da deficiência, e a de ignorância, que é o desconhecimento que se tem de uma determinada deficiência, potencialidades, habilidades, forma própria de aprender, ser e agir. Sob esses aspectos, constata Disneylândia, “o comportamento dos alunos diante dessas dificuldades é de conformismo, insatisfação ou reivindicação”.

Como mulher, educadora, pessoa com deficiência motora e nascida no campo, a pesquisadora decidiu-se pelo tema da dissertação ao se ver envolvida com os conflitos sociais na luta pela educação democrática. “Os processos sociais e educacionais vividos e observados no seio de uma sociedade que, por meio de seus signos e símbolos, categoriza, fixa padrões, separa as pessoas com base em atributos que supostamente destoam do modelo idealizado, mobiliza-se como pesquisadora do ensino superior”, declara.

“Obstáculos presentes no discurso e na dinâmica social”
 
Conforme é apresentado na dissertação “Barreiras atitudinais: obstáculos e desafios à inclusão de estudantes com deficiência no ensino superior”, a cidade não é adaptada para a pessoa com deficiência e a realidade exige que ela é que se adapte às condições existentes. A solução do problema da falta de acessibilidade não é meramente estrutural, pois universidades, assim como os grandes centros urbanos, não são planejadas de modo a atender às necessidades de toda a população. Entretanto, alerta a pesquisadora Disneylândia Ribeiro, “a exclusão, para além das condições materiais, é influenciada, sobremaneira, pelas atitudes conservadoras, homogeneizadoras e limitantes”.

O estudo mostra que “o buraco é mais embaixo” e aponta como principais desafios à inclusão da pessoa com deficiência no ensino superior os obstáculos de natureza arquitetônicas, comunicacional, pedagógicas e atitudinais. Pois, elenca a educadora, “faltam rampas com a inclinação adequada; as calçadas não têm manutenção; os tamanhos das portas e banheiros são inadequados e falta corrimão; também não há informações e nem intérprete de libras; as práticas educacionais são inadequadas, faltam materiais didático adaptados e, sobretudo, a atitudes dos professores em sala de aula e relacionamento com colegas são contrários ao que deve ocorrer para melhor acolher as pessoas com deficiência”.

A autora verificou, ainda, que esses obstáculos também estão presentes no discurso e na dinâmica social, e podem assumir um caráter assistencialista, normalizante, discriminatório, e, por fim, excludente. “Dessa forma, as universidades precisam criar não somente políticas voltadas às condições de acesso, mas também estratégias de acessibilidade ao conhecimento, apoio pedagógico ao estudante e, principalmente, mudanças de atitude”, reforça Disneylândia. A pesquisa ressalta que as barreiras de atitude estão na base dos demais obstáculos, o que enfatiza que incluir vai além da determinação de um percentual de vagas em lei, e envolve a adoção de atitudes positivas e a criação de culturas inclusivas. “É necessária a mobilização de práticas e políticas educacionais inclusivas por meio do reconhecimento, da reflexão e crítica frente às barreiras atitudinais no âmbito universitário”, afirma.

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPE
(81) 2126.8334

Disneylândia Maria Ribeiro
(84) 99664.4537 (para uso exclusivo da imprensa)
prof.disney@gmail.com


Post Author: Assessoria

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